NÃO ADIANTA APENAS SER BONZINHO, DISCIPLINADO, TRABALHADOR E TEMENTE À DEUS, PARA MARCAR NOSSO LUGAR AO SOL

Advogado especializado nas áreas de negócios internacionais, tributos e sucessão, o carioca Aloysio Vasconcellos é hoje uma das mais relevantes lideranças brasileiras na Flórida. Vive nos Estados Unidos desde 1970, com um hiato de seis anos, quando voltou a viver no Brasil e também na França.

Em 1989 fundou a Westchester Financial Group, dedicada ao planejamento de sucessão e direito tributário, que como ele mesmo define atua “na proteção de ativos de indivíduos e empresas que precisem de assessoria internacional”, ressaltando que é “uma área de tratamento sofisticado, pouco explorada por profissionais brasileiros, apesar de hoje em dia já haverem competentes concorrentes”.

Nos últimos anos, Aloysio tem dedicado mais e mais tempo aos temas dos brasileiros no exterior. Fundou seguidamente o Brazilian Business Group, Projeto Manhã Brasileira, Brazilian International Foundation e o Brazilian Cultural Group. Também foi eleito Secretário-Geral do Conselho de Cidadãos Brasileiros da Flórida.

B&B – Por que você criou o BBG e como você avalia o crescimento da entidade nesses últimos 5 anos?

Aloysio Vasconcellos – Em 2006, um grupo de empresários brasileiros residentes e operando nos Condados de Broward e Sul de Palm Beach, no qual me incluí, conscientizou-se da necessidade de melhor organizar e estruturar a comunidade empresarial brasileira da região, buscando a elevação de seu nível profissional e a competência necessária para trilhar, objetivamente, os caminhos de um desenvolvimento econômico, político e social compatível com nossos anseios como minoria e a contribuição efetiva que carreia às sociedades anfitriãs.

B&B – Como surgiu a Brazilian International Foundation e quais são os objetivos da instituição?

AV – Com o sucesso das atividades do BBG, vimos ser necessária uma melhor estruturação de nossa organização, embora mantendo o caráter voluntário de sua administração. Por incrível que pareça, a palavra “Business” em nosso nome há muitos dá a impressão de que somos endinheirados e que há um objetivo secundário de tirar vantagem dos nossos próprios esforços e dedicação voluntária. Decidimos então criar uma Fundação, a Brazil International Foundation, que desde o principio deste ano passou a ser a entidade mantenedora do Brazilian Business Group e do Brazilian Cultural Group, este último exclusivamente voltado às atividades culturais e educacionais. O BBG, desde 2007, tem o status de non-profit organization, reconhecido pelo IRS americano. A Fundação e o BCG estão em processo de aprovação, o qual esperamos ser em breve.

B&B – Você está cada vez mais envolvido com os assuntos brasileiros na Flórida. O que significa fazer parte do Conselho de Cidadãos?

AV – Certamente, acabei me envolvendo cada vez mais, por conta deste trabalho voluntário que lidero na companhia de parceiros excepcionais, que dividem os mesmos sonhos que os meus. O Conselho de Cidadãos é um anseio de longo tempo. Iniciativa corajosa do atual Cônsul-Geral do Brasil em Miami, muito dele deve-se esperar, pois permitirá uma ligação mais eficiente e próxima entre o Consulado Brasileiro com jurisdição sobre a Flórida e a comunidade brasileira no Estado radicada. Permitirá um diálogo rápido e dinâmico sobre todos os assuntos, expondo realidades, possibilidades e limitações até hoje desconhecidas e mal interpretadas por ambas as partes.

B&B – Você tem dito que o emigrante brasileiro precisa entender a necessidade da representação política? Essa representação tanto aqui nos EUA quanto no Brasil?

AV – Eu sempre deixei clara a minha crença de que somente através do desenvolvimento econômico-político e social das comunidades teremos condições de ver nossa contribuição às sociedades que nos hospedam devidamente reconhecidas. E isto também se aplica ao Brasil. Infelizmente, não adianta apenas ser bonzinho, disciplinado, trabalhador e temente à Deus para marcar nosso lugar ao sol. Há que ser tudo isto e mais, ter nossas contribuições devidamente reconhecidas e compreendidas. Trazemos investimentos para os EUA/Flórida; somos a minoria com melhor nível educacional do Estado; exercemos concentração em cidades que ajudamos a prosperar, onde somos em grande parte proprietários de imóveis, portanto contribuintes diretos e importantes para a vida e o bem estar local; por volta de 15% de nossa comunidade de 300.000 pessoas é americana, por naturalização, e mais está por chegar em curto prazo, quando nossos filhos, milhares deles, atingirem, em menos de dois anos, os 18 anos. E por nada disto somos reconhecidos. Por outro lado, a sociedade brasileira desconhece o que se passa aqui fora. Para o brasileiro que lá está, e para onde enviamos, a nível mundial, perto de 7 bilhões de dólares anualmente (contribuição líquida, alcançada por poucos estados da Federação), somos um “bando” de brasileiros insatisfeitos e fracassados no exterior prestando serviços secundários, exceto, claro, os que vão para Wall Street, que numericamente são muito poucos e que provavelmente poucas remessas fazem para o Brasil. Por essas e inúmeras outras razões, defendo, num prazo mais longo, mas o mais rápido possível, a eleição de deputados e senadores representando as comunidades emigrantes, num modelo semelhante ao hoje seguido pela Itália e Portugal. Um passo a cada tempo, mas um seguindo o outro.

B&B – Você se vê como um potencial representante dos brasileiros, concorrendo a cargos eletivos ?

AV – Todos me perguntam isto, exceto meus companheiros da Fundação/BBG e BCG, talvez porque estes me conheçam melhor e acompanhem a transparência, sinceridade e desinteresse de meu trabalho. Sou muito mais interessado na organização e desenvolvimento da(s) comunidade(s) do que interessado em cargo político. Tenho certeza de que temos todas as condições em pouco tempo de termos candidatos brasileiro-americanos. Antes, certamente, deveremos ter brasileiros de origem ocupando cargos não eletivos em governos regionais (municipais, condados e estaduais) nos EUA.

B&B – Qual, na sua opinião, é o problema mais sério e comum aos diferentes segmentos de brasileiros vivendo no exterior?

AV – Eu sou daqueles que acham que a baixa autoestima do brasileiro é muito forte. Lamento dizer, mas de um modo geral, não somos preparados para competir. Orgulhosamente nos reportamos, quando solicitados, a um ou outro caso isolado, o que comprova a assertiva que fiz, sempre lembrando que as exceções comprove as regras. Razões para isto devem ser muitas, não sou antropólodo ou sociólogo, mas viemos de uma sociedade injusta e preconceituosa, apesar de aceitar, relativamente, o deslocamento vertical, este desde que o dinheiro chegue na frente. Assim, não compomos um grupo “brasileiro”, mas de grupos de brasileiros. Uns desconfiando dos outros. Como diria o Elio Gaspari, conhecido e competente jornalista brasileiro, o “andar de cima” não confia e desdenha do “de baixo”, e o “de baixo” sempre sabe que está sendo manipulado. Às vezes não sabe como, mas acha que está. Enquanto este estado de espírito permanecer tudo fica mais difícil, mas não impossível. Sou um otimista inveterado e acredito no crescimento e na força dos emigrantes brasileiros e em seu poder de transformação.

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